sexta-feira, 10 de outubro de 2014

histórias de alguém que não eu (3)

Não te lembras de mim porque nunca te disse quem era, mas às quartas e, se a memória não me falha outra vez, às sextas também, sentavas-te de vez em quando comigo à espera do comboio das 15h47.
Não leves muito tempo a tentar lembrar-te de grandes pormenores ou a fazer perguntas como por exemplo, "Como é que esta arranjou o meu mail?", agora também não importa assim muito.

Disto tudo que te escrevo, quero que retenhas apenas isto: eu amei-te e tu nunca soubeste.
Sabias tantas coisas, mas nunca soubeste que te amei daquela forma. Desta forma. Mas olha, se queres que te seja realmente sincera, nem eu. Nunca soube que se podia amar assim tanto alguém aos 16 anos, nunca soube o capaz que era de amar até, note-se, ao fim dos meus dias. Nunca soube, mas agora sei, e puta da idade que não me deixou perceber isso antes de, note-se isto também, estar a morrer de algo que nem sei sequer pronunciar o nome.
Os médicos dizem que é rara, a doença, mas eu costumo dizer-lhes que raro és tu.

Mas não penses muito sobre isso, não tem importância porque estou feliz. Estou, a sério que estou, feliz pelo simples facto de, passados uns setenta e três - para ser exacta - infernais anos na cama com uns tantos que não eram tu, te escrever este e-mail, que bem sei que não vais ler.

Isto é apenas um descarte de consciência, é mais um "vou finalmente poder morrer em paz com o Universo", do que propriamente um "eu sempre te amei, agora vem por favor" como costuma acontecer nos filmes. Não sou cá dessas coisas. Nunca fui. Não preciso que me ames por pena, só preciso que saibas que ainda te amo.

Que saibas que fui, para além de muitas outras coisas, a pessoa que mais te amou - que se lixem as outras com quem estiveste. Eu posso, com toda a certeza, dizer-te que te amei muito mais que elas.

Eu posso dizer-te aliás, que te amei, literalmente, até ao fim dos meus dias.
E quem ama assim, meu amor, garanto-te que não ama pouco.

1 comentário:

  1. Todas estas tuas histórias que vives atraves da tua mente são sempre maravilhosas... Já alguma vez pensaste em escrever um livro?

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